quarta-feira, 31 de maio de 2017

O Druidismo Moderno - alguns esclarecimentos

(crédito da imagem)


Por Ávillys d"Avalon

Hoje vem textão...

Muitas vezes vejo pessoas curiosas sobre o que pratico e acredito, então resolvi falar desse tal de DRUIDISMO...

Druidismo é a fé dos druidas vivenciada hoje. Ok? Mas quem são os druidas? Bem, eles eram a elite sacerdotal celta no período pré-cristão europeu. Os celtas eram um conjunto de povos e tribos polissêmicos que vivam por quase todo a Europa (Irlanda, Grã-Bretanha, norte de Portugal e Espanha, França, um pedaço da Alemanha chegando a um pedaço da Turquia). Eles possuíam vários reinos... Os mais famosos são Ériu, Caledonia, Bretania, Gales, Galícia, Gália e Galácia, que correspondem aos países e territórios citados acima. Obviamente que esses povos formaram culturas diferentes e cultuavam deidades diferentes. A junção desses povos como "cultura celta" se dá muitas vezes pelas proximidades linguísticas, migratórias e étnicas, mas mesmo isso não é um consenso fechado entre os historiadores.

Nessas sociedades havia sempre a presença de um sacerdote detentor de profundo prestígio: os druidas. Que assim como a polissemia dos povos celtas, também desempenhavam papéis bastante diferentes entre as várias tribos e reinos celtas. Na Gália (França), os druidas eram descritos como juízes, professores, médicos e filósofos, geralmente trajavam o branco e eram verdadeiros intelectuais. Já em Ériu (Irlanda) sua descrição era muito mais próxima ao que chamamos hoje de um xamã, trajando roupas de matriz animal. Há aqui profunda diferença étnica em seu ofício, vestuário e em sua relação social, mas ainda assim, o druida é sempre considerado "o homem com a sabedoria do carvalho", um homem sagrado. A ele eram prestadas reverências e obediências enquanto sacerdote e líder espiritual e/ou filosófico de seu povo.

Obviamente, o curso do "druidismo original" "morreu" com a chegada do Império Romano seguida da cristianização da Europa. E muito pouco ficou registrado de sua "época dourada", já que os celtas não eram famosos por deixar registros escritos, e sim por cultivar a tradição oral de sua história através, principalmente, dos bardos. O que chegou a nós de registro escrito, tem origem medieval. São tratados e pergaminhos que descrevem um pouco das lendas, filosofias e sabedoria do fascinante mundo celta. Mas a maioria desses materiais (de escrita profundamente tardia), foi cunhado por escribas cristãos ou monges copistas e já demonstram ser um material muito raso comparado a profundidade das culturas celtas, uma vez que a Europa já era cristianizada e muito da cultura e história já havia morrido ou estava morrendo. Textos anteriores a essa época em geral são relatos romanos, o que não se torna um parâmetro preciso, pois o lado vencedor sempre demoniza os que perderam a batalha.

Em 1717 surge um movimento na Europa de reavivamento druídico, em que surge o que hoje chamamos de Druidismo Clássico ou Mesodruidismo. No Druidismo Clássico há a crença de um ser único e todo poderoso, superior aos Deuses, chamado de "O Incriado", e geralmente a escala iniciática se dá por uma escadinha entre os três ofícios: bardo, ovate e druida. Atualmente esse movimento é mais frequente na França e em algumas regiões da Grã-Bretanha.

Já em meados para o final do século XX surge um movimento chamado de Reconstrucionismo Celta, que buscava reviver as fés e culturas celtas nos dias de hoje, buscando maior embasamento e pesquisa de cume histórico e acadêmico como forma de tentar recriar ou ressignificar a cultura celta. Aliado a esse movimento surge o que podemos chamar de Druidismo Moderno ou Neodruidismo, que vai juntar a tradição do século XVIII com os embasamentos e pesquisas realizados pelo Reconstrucionismo. É aqui que eu me insiro.

Em cima disso, o Druidismo hoje é um sistema de crenças complexo profundamente polissêmicos como o eram os povos dos quais baseamos nossos credos. Há múltiplas interpretação das culturas e vivências celtas. Mas há uma linha comum, um fio de ouro, que conecta todas as tradições: O Druidismo Moderno se baseia no culto aos três povos: Deuses, Sídhe (que seriam os elementais, mas mais amplo que isso) e ancestrais. Acreditamos nos antigos Deuses celtas e buscamos alinhar nossa prática com rigor e pesquisa, religiosa e histórica. A comunidade druídica não costuma passar seus conhecimentos de modo didático em aulas e cursos. O Druidismo em geral preza pelo seu grau recluso e interno, um aprendizado passado de nível sacerdotal não acessível meramente por cursos. Os grupos druídicos geralmente não cobram exorbitantes taxas de inscrição e mensalidade, são o que chamamos grupos devocionais e não escolas. Algumas tradições possuem iniciação, outras não.

O Druidismo reconhece a sacralidade da terra, dos animais e desse mundo. Mas não cultua em seu credo básico uma Deusa única e/ou um Deus único. Somos politeístas e essa visão não é compartilhada em nosso meio, apesar de profundamente respeitada. Assim como a maioria dos druidistas apoiam movimentos feministas e movimentos do Sagrado Feminino (sendo possível a existência desse dentro do Druidismo). Mas sabemos que historicamente os celtas não eram matriarcais, apesar de algumas tribos serem matrilineares (ou seja, a herança e linearidade familiar era de regência feminina, materna, mas aqui não há uma figura matriarca ou e predominância feminina sobre o masculino), pelo contrário, a maioria das sociedades celtas erma sim patriarcais. Não há a crença que se sustente no mito original ou na vivência do drudismo a exitência de uma escola ou predominância feminina de druidesas, apesar de terem existido druidesas, mas elas não eram mais poderosas ou ocupavam escolas ou ilhas com poderio sobre-humano na política e religião (não é nem sabido se essas druidesas eram maioria ou não, o que nos leva a crer que não). Os druidistas de hoje tem profunda ciência de que os celtas não são povos românticos... Eram guerreiros letais e cruéis, com práticas que hoje nos seriam abomináveis (como colecionar cabeças do inimigo), e por essa razão o Druidismo de hoje realiza um sincretismo com nosso tempo e nossa ideologia, adequando as práticas ao nosso julgamento moral e ético. Buscamos preencher as lacunas da história e da religiosidade de forma séria, através de estudo profundo das lendas, história, credo, filosofia dos povos antigos. E sim, os druidas irlandeses tinham um oráculo e escrita próprios, chamado Ogham, mapeados no "Book of Ballymote" de 1390. Esse oráculo e escrita é hoje usada por grande parte dos druidistas como pesquisa, estudo e aprofundamento religioso e oracular.

Hoje, insere-se no druidismo, uma máxima religiosa compartilhada pela maioria de seus membros que, podemos elencar como uma máxima ou o foco da fé druídica: "cure a si, cure a tribo, cure o mundo". A cura aqui extrapola a ideia de cura corporal e tange às habilidade da Deusa Brighid, muito cultuada pelos druidistas. Mas esse tema por si já nos cabe um outro textão. Junto a essa máxima podemos dizer que o culto ancestral é a base do Druidismo que busca um conhecimento ancestral como forma de se conectar com o Sagrado. Por isso outra máxima é costumeiramente falada no meio: "honre seus ancestrais de sangue, honre seus ancestrais de terra e honre seus ancestrais de alma". O que isso significa, significa que o Druidismo não está aqui para segregar nem limitar as vivências religiosas e pessoas de ninguém. Mas isso também não significa que concordamos com misturas religiosas feitas sem um estudo aprofundado de todas as tradições a serem sincretizadas. Sincretismo para dar certo precisa ser bem estruturado e profundamente amparado pela base religiosa. Afinal, é preciso HONRAR as tradições. E essa é uma palavra muito forte e cara para os celtas antigos e igualmente para os druidistas da atualidade.

Portanto, o Druidismo não é "samba do criolo-doido", não é mistureba com deuses celtas. O Druidismo é um ofício, uma filosofia, um credo, uma religião, uma cultura, um modo de vida muito específico... Que reúne uma polissemia de tradições herdadas desde os tempos antigas, mas hoje condensadas sobre um credo básico, seguro e firme.

Há no Brasil um Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta (EBDRC), evento etinerante pelo país de caráter anual, que busca reunir os druidistas para discutir suas práticas e subsidiar seus estudos, dando um caráter mais profundo ao que está sendo feito, e igualmente visa aproximar a comunidade como um todo. Igualmente há um Conselho Brasileiro de Druidismo e Reconstruicionismo Celta (CBDRC) que reúne grupos sérios de Druidismo e Reconstrucionismo para evitar fraudes e farsas, pois não sejamos românticos, elas existem em todo lugar. Mas o melhor meio de preservação e autopreservação da sua religiosidade ainda é o senso crítico apurado e a pesquisa constante. ;)



Referências e sugestões:


CASTRO, Dannyel de (trad.). O Problema com o Neopaganismo in Bosque Ancestral [S. I.]. Disponível em <https://bosqueancestral.wordpress.com/2017/05/25/o-problema-com-o-neopaganismo/>, acessado em 31 de mai. de 2017.

COVEY, Stephen R. Druidry as a culture in Philip Carr-Gomm [S. I.]. Disponível em <http://www.philipcarr-gomm.com/druidry-as-a-culture/>, acessado em 31 de mai. de 2017.

CUNLIFFE, Barry. The Celtic World. Londres: Constable an Company, 1992.

____. The Ancient Celts. Londres: Penguin Books, 1997.

ECNAI, Máh Búadach Ingen. O que é Druidismo? in O Livro de Buadacha [S. I.]. Disponível em <https://olivrodebuadach.wordpress.com/2017/05/27/o-que-e-o-druidismo/> , acessado em 31 de mai. de 2017.

GREEN, Miranda J. The celtic world. Londres: Routledge, 1995.

____. The world of the Druids. Londres: Thames and Hudson, 2005.

GUIMARÃES, Andréia. O que foi o Mesodruidismo? in Druidismo [S. I.]. Disponível em <http://www.druidismo.com.br/index/artigos/Entries/2015/4/12_o_que_foi_o_mesodruidismo.html>, acessado em 31 de mai. de 2017.

MATTHEWS, Caitlín. O Livro Celta dos Mortos. São Paulo: Madras Editora, 2003.

SENEWEEN, Rowena A. Druidismo in Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em <http://www.templodeavalon.com/modules/mastop_publish/?tac=Druidismo>, acessado em 31 de mai. de 2017.

SENEWEEN, Rowena A. & CAVALCANTI, Luciana (trad.). Reconstrucionismo Celta in Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em <http://www.templodeavalon.com/modules/mastop_publish/?tac=Reconstrucionismo_Celta>, acessado em 31 de mai. de 2017.

domingo, 13 de novembro de 2016

Os Três Círculos da Existência

(crédito da imagem)

Por Ávillys d'Avalon.

De acordo com o sistema Barddas[1], há para os celtas três níveis de manifestação, ou de existência, e através desses, três mundos. Abred, Gwynfyd e Ceugant. Ou seja, a existência física e humana, a divina e a espiritual ou essencial.
            
O primeiro mundo, considerado de o Mundo inferior ou abaixo para alguns, ou o mundo central e original para outros, é correspondente ao Círculo de Abred. O Mundo das Manifestações materiais e físicas.
            
Abred se divide em três níveis: Annwn, o Abismo Primordial, onde todas as coisas nascem, de onde a vida emana, ainda inconsciente. Gobren, a Injustiça ou Provação, onde a vida que se originou em Annwn passa por todos os tipos de provações e descobre seu destino ou caminho até o próximo estágio. Kenmil, a Crueldade, onde a vida que se originou em Annwn, aprendeu sobre si e a reagir em Gobren, ganha sensibilidade, emoções.
            
Esses três níveis, muitas vezes está associada aos reinos mineral, vegetal e animal, mas ultrapassam essa noção na escala espiritual.
            Abred é regido por Ankou, a Fatalidade ou o Destino, que nada mais é do que a manifestação de Ank, o Mundo.
            
Dessa forma, a vida que se origina inconsciente percorre um caminho de provações a fim de tomar sua máxima consciência, adquirindo, por fim, a sensibilidade que traz consigo as emoções e sentimentos. Essa é a escala evolutiva celta no que concerne a realização do primeiro círculo das manifestações, destinado vinculado à manifestação material. Abred é o mundo em que nos encontramos, e indica nossa superação e aperfeiçoamento espiritual, buscando a iluminação, ou a consciência pura.
            
A visão celta desse mundo, portanto, é uma visão de provação e testes, de domínio e superação de seu eu mais primordial e profundo. É no Círculo de Abred que se é colocado em jornada evolutiva, construtiva e profunda. A vida surge do abismo, do profundo, emana dele. Emana do escuro, do vazio. Mas apenas as provações podem dar a ela consciência, manifestação, destino. É na crueldade (que só pode ser conhecida através dos sentimentos) que a vida é levada a tomar consciência e superar-se profundamente, alcançando a iluminação.
            
A crueldade aqui não é entendida como um estímulo a práticas consideradas cruéis, mas sim como a superação da crueldade natural do mundo terreno, das provações da vida e do mistério das origens.
            
O segundo círculo, é o círculo branco, o Círculo Gwynfyd. Esse é o círculo do lar divino, das divindades e daqueles que alcançaram a iluminação, que superaram o Círculo de Abred. Após a morte, somos levados a ascende ao Círculo de Gwynfyd ou a retomar a tentativa passando novamente pelos três estágios de Ankou no Círculo de Abred. E assim sucessivamente até que alcancemos Gwynfyd.
            
Por vezes, essa noção aparece vinculada aos Três Reinos clássicos da mitologia irlandesa, em que Abred é descrito como o Reino Abaixo (Tír Andomain), vinculado ao Mar, que se estende pelas profundezas. Ank é o mundo, a terra, a Terra Média (Bith), onde vivemos nossa fatalidade (Ankou) ou nosso Destino. E Gwynfyd é o Reino Celestial (Mag Mór), acima. Onde encontram-se os Deuses, a Grande Planície e a Terra da Promessa. É comum na mitologia irlandesa a descrição de que os Deuses chegam a esse mundo em barcos que voam.

O terceiro círculo, no entanto, é o Círculo de Ceugant, o Mundo Vazio, onde se encontra a Existência Primordial, a essência de todo o cosmos celta. É um mundo em que ninguém pode estar, é lar exclusivamente espiritual, onde todos os opostos estão reunidos (ser/não-ser, vida/morte, luz/trevas). O fato de não haver existência “consciente” ou física nesse mundo se dá pelo fato de que ninguém pode ser e não ser ao mesmo tempo, está vivo e morto ao mesmo tempo. Ceugant, muitas vezes é descrito como o Centro do Mundo, de onde todas as coisas emanam. Ou, também é descrito, como o último estágio de evolução, a absoluta transcendência

Esses Círculos também estão manifestados na Cruz Celta, que comumente possui um círculo central: Ceugant; um círculo intermediário: Gwyfyd; e um círculo externo: Abred. Assim, a vida é originada e levada a percorrer os quatro caminhos da existência marcado pelos quatro grandes festivais (Samhain, Imbolc, Beltane, Lughnasadh) até alcançar o estágio de Ceugant. Mostrando que o processo de vida, morte e renascimento é cíclico e perpétuo nos dois círculos externos.

(crédito da imagem)


Referências:

____. Druidry in Pagan Federation International, New Zeland (Aorearoa). Disponível em: <http://nz.paganfederation.org/druidry.php>, acessado em 14 nov. 2016.

ISARNOS, Bellouesus. Os Três Círculos da Manifestação in: Bellodunon. Disponível em: <https://bellodunon.com/2014/06/24/os-tres-circulos-da-manifestacao/>, acessado em 14 nov. 2016.

SCHWARZ, Fernando. Druidas – os sacerdotes celtas in Nova Acrópole. Disponível em: <http://www.nova-acropole.pt/a_druidas.html>, acessado em 14 nov. 2016.


[1] Sistema de Druidismo e desenvolvimento Druídico criado por Iolo Morganwg no século XVIII.

quarta-feira, 30 de março de 2016

O Ogham

Link
Ogham: alfabeto celta.

Por Ávillys d’Avalon.

Ogham (pronuncia-se “ôuan”) é o alfabeto celta com registros desde o ano 600 antes da Era Comum. É bastante conhecido na atualidade pelos druidistas e reconstrucionistas celta. Sua finalidade divide os pesquisadores do assunto: alguns afirmam que ele foi criado para ser uma linguagem secreta velada aos invasores, principalmente os romanos, outros já os denotam caráter ritualístico e celebrativo. Ele também é chamado de “alfabeto das árvores”, pois cada letra / símbolo representa uma árvore sagrada para os antigos celtas.     
       
Além disso, cabe ressaltar que, de acordo com Bellouesus Isarnos, em sua palestra nos Encontros com o Druidismo do Rio Grande do Sul (EcD/RS), o alfabeto que chegou até nós hoje e que é mais comumente utilizado não é a única variação e escrita possível do Ogham.
            
Acredita-se que o Ogham tenha sido um presente do Deus Ogma – deus da escrita e da eloquência – para a humanidade.
            
Inicialmente, ele continha 20 letras (feadha / feda) divididas em 4 Famílias ou Raças (aicme), mas, posteriormente, foi acrescentada mais uma família de 5 letras – os forfeda – destinada a adequar-se às inscrições em pergaminhos.

O nome das letras oghâmicas é "fid" (singular) e "feda" (plural) em irlandês antigo. No irlandês moderno são: "fiodh" e "feadha" - que são palavras traduzidas como "madeira" e "bosque".

Encontra-se em grupos com séries de cinco letras cada, originalmente, e continham apenas as quatro primeiras séries. A quinta série "forfeda" tinha os primeiro cinco e depois mais seis letras de sons importados de outras línguas e que não existiam na língua irlandesa.

A linha central representa o tronco de uma árvore "flesc" e os traços, os galhos. Escrito na horizontal, em manuscritos, da esquerda para a direita e na vertical, em pedras, de baixo para cima (como se escalasse uma árvore); iniciados pelo símbolo "eite" (pena) e terminados com "eite thuathail" (pena invertida). As palavras eram separadas por "spás" (espaço).


As três principais fontes de estudo do Ogham são os manuscritos irlandeses: Auraicept na n-Éces (pronuncia: aurikepet na niches), O Lebor Ogaim e o Bríatharogam. Além da própria vivência pessoal.

"No tempo de Bres, filho de Elatha rei da Irlanda, o Ogham foi inventado por Ogma, um homem bem qualificado no discurso e na poesia e foi a partir das árvores da floresta, que os nomes foram dados às letras do Ogham. As primeiras inscrições em Ogham datam do século IV d.C. em torno do mar da Irlanda, onde as inscrições em pedra começaram a florescer a partir do século V e VI. Sua invenção pode ter uma origem mais antiga, acredita-se que as primeiras inscrições foram gravadas em madeira ou metal, sendo assim perecíveis e não sobreviveram aos tempos modernos." - Tratado ou Trato de Ogham.

O que nos cabe ressaltar no entanto, é que o Ogham é muito mais que um mero alfabeto para escrita. Na verdade a escrita era o seu menor uso, uma vez que ela não era comum entre os celtas até a romanização. O Ogham nos sugere duas outras práticas: uma mais comum que é seu uso divinatório, o Ogham Oracular; e a outra pouco falada mas de muito maior importância que é o Ogham como um caminho místico de desenvolvimento e crescimento tanto mundano quanto espiritual. Dessa forma, seu uso pode muito bem ser mágico (em um encantamento, poção, ritual) ou ainda meditativo, instrutivo, vivencial e oracular. Tudo o que existe passa ou possui as 20 feda do Ogham original. Um bom exercício é pegar um acontecimento específico e analisa-lo pelo parâmetro do Ogham, estudando e buscando conhecer cada uma das feda em cada momento daquela situação a que se estuda.

Se vivenciarmos o caminho corretamente, deveremos passar por cada estágio da vida seguindo o fluxo do Ogham, da primeira a quarta família, da primeira a quinta letra em cada família, completando exitosamente o percurso da vida: infância, adolescência, vida adulta e velhice.

Meditar e buscar o Ogham como forma de se harmonizar a fim de conseguir superar ou vencer em uma determinada situação é sempre válido. O Ogham traz consigo a sabedoria e o poder das árvores celtas, uma maneira prática de ativá-lo é entoar o nome de cada fid como um mantra, ou canto harmônico, a fim de evocar sua energia ancestral, mágica e poderosa para aquele momento ou situação.

Enfim, o uso do Ogham é variado. O que apresento aqui é um pequeno resumo do estudo que eu mesmo fiz a respeito do Ogham, mas recomendo que se aprofunde sobre cada fid a fim de compreender melhor seu significado e uso. Recomendo muito os artigos do Templo de Avalon sobre as quatro primeiras famílias, e o artigo sobre os forfeda.


As feda do Ogham:

Aicme Beithe (Família da Bétula):
É o começo, a infância, o descobrimento.

Beith (“bé”) – Bétula – B: Nascimento. Inícios. O começo de tudo em um ciclo sem fim. Indica grandeza, flexibilidade, sobrevivência, abertura para o novo, os novos caminhos e poucas expectativas. Requer foco e concentração. É o banimento do negativo em si mesmo. A bétula é o começo de todas as coisas.



Luis (“luish”) – Sorveira Brava – L: Visão. Honra. Proteção. Abnegação. Dedicação. É a percepção material do que está ao seu redor, a devoção a algo maior. Indica sucesso material e é apropriada para as buscas e batalhas, mesmo que duras. Requer autoconfiança, força e autoconhecimento. A sorveira é a visão que se abre a todas as coisas.


Fearn (“fiarn”) – Amieiro – F: Proteção. Avanço. Determinação. Vigilância. Precaução. O amieiro fala da singularidade de cada um, da justiça na equidade, no beneficiar outro e atuar como ligação. Indica avanço, vitória e proteção. Requer altruísmo, determinação, ousadia e noções aguçadas. É preciso que deixe a intuição falar e que aja com altruísmo e ousadia. O amieiro é a proteção que nos permite caminhar.

Sail (“sále”) – Salgueiro – S: Magia. Mistério. Transformação. Morte. Ancestralidade. O salgueiro é a árvore dos talentos, do crescimento pessoal, do aflorar da inteligência e da intuição. Indica autoconhecimento, inspiração, criatividade e talentos. Requer libertação da dor e do passado, amadurecimento e olhar para dentro de si mesmo. Requer também percepção, amadurecimento, compreensão e calma. É o crescimento (mais interior do que físico) e a conexão com as coisas já postas, nosso lado intelectual, criativo, meditativo e psíquico. O salgueiro é a conexão com si mesmo.

Nion (“nían”) – Freixo – N: Conexão com os Mundos. Destino. Evolução. Compreensão. Consciência. É a Árvore do Mundo, a lei e o inevitável. Representa algo maior que existe nas pessoas, com as pessoas e para além das pessoas. É a consciência de si como um microcosmo inserido no cosmo. Tudo está interligado. Indica conexão e o destino (Dán). Requer consciência e equilíbrio, aceitar ajuda e ver as coisas com mais amplitude. O freixo é a consciência que transcende o ser.



Aicme hÚatha (Família do Espinheiro Branco):
É a adolescência, o desbravamento e as iniciações.

hÚath (“huá”) – Espinheiro Branco – H: Teste. Descobertas. Dor. Sátira. Superação. O espinheiro branco é a certeza de que se pode superar os obstáculos com estratégia, é o merecido repouso e o júbilo após os testes e dificuldades do dia a dia. Mas também é o encontro feérico. E, por isso, é o inesperado, a fertilidade, a sexualidade. Requer cautela, proteção, defesa, perspicácia e cuidado com a saúde física, mental e espiritual. Induz a uma vida saudável, ao riso e à sátira das más situações, a superação das provações com estratégia. Estimula a vidência e a purificação. O espinheiro branco é o enfrentar o mundo.

Dur (“dúr”) – Carvalho – D: Honra. Força. Perícia. Estabilidade. Sabedoria. Ação. O carvalho é o rei das árvores por ser a mais antiga e madura. Representa as habilidades difíceis de se conseguir e é a atuação no mundo. Requer estabilidade, solidez, força, honra e perícia. Representa a nobreza, os valores e a sabedoria. Indica estabilidade e conhecimento tático. A diplomacia também é uma habilidade honrada. O carvalho é a autoridade, a força, a honra e a sabedoria que só se aprende na prática.


Tinne (“tchínia”) – Azevinho – T: Vitória. Justiça. Transformação. O meio termo. Instinto. Vitalidade. O azevinho é o terceiro caminho que se abre; vincula e equilibra os opostos binários. É a causa justa a ser ganha e o afirmar-se no mundo. Representa a luta justa e o caminho do meio. Indica conflito, coragem e vitória. Requer ponderação, escolhas informadas, equilíbrio, justiça e esforço. O azevinho é o colocar-se no mundo e fazer dele o seu lugar.


Coll (“câll”) – Aveleira – C: Intuição. Inspiração. Sabedoria. Ligação ancestral. Doçura. Humildade. A aveleira é o arauto que aponta para algo maior do que ela, e mesmo assim estimula os outros com sua sabedoria humilde. É a sabedoria do cotidiano, suave, serena e profunda. Indica uma sabedoria essencial, familiaridade, humildade, conhecimento, conforto, exemplo e doçura. Requer reflexão, contemplação, autoavaliação, paz e humildade. A aveleira é a inspiração pura que nos infla e nos move suavemente.


Quert (“qüert / kyert / kert / keirt”) – Macieira – Q: Beleza. Amor. Inspiração. “Divina loucura”. Sexo. Êxtase. Escolha. Prazeres. É a Árvore do Conhecimento. Simboliza a segurança na viagem ao Outro Mundo e está vinculada aos sídhe e a inspiração vinda deles. É a loucura e a sanidade, o amor, o sexo e os prazeres. Indica encanto, amor, juventude, beleza, bênçãos, prazeres e a vida eterna. É os divinos prazeres do mundo e as alegrias humanas. Mas requer foco, escolha e determinação. A macieira é o desenredar das paixões e do amor.


Aicme Muine (Família da Videira):
É a vida adulta, a responsabilidade e o conquistar da maturidade.

Muin (“mun”) – Videira – M: Força. Profecia. Desejo. Trabalho. Tecedura. Obstinação. Caos. Discórdia. Confusão. A videira fala da força interior e do poder do domínio e do controle da situação. Indica força e necessidade de ouvir sua real e profunda intuição, seu interior. Representa a adequação às situações a compreensão do passado e a tecedura do futuro. Requer força de vontade, compreensão e foco. É preciso que se deixe nosso interior falar e que o dê atenção ao invés de sempre buscar a razão de tudo. A videira é a força interior e os presságios da vida.

Gort (“Górt”) – Hera – G: Abundância. Conhecimento. Chamado. Desapego. Sociabilidade. Realização. Plenitude. Dependência. A hera é a força da abundância que se espalha e um lembrete à responsabilidade para que nada saia do controle. Indica um chamado e a realização dos projetos e sonhos. Requer conhecimento e conexão com as coisas a sua volta e a si próprio. É a perda das inibições e a destruição dos obstáculos e falsidades. A hera é a felicidade que se projeta para quem sabe vive-la.


nGétal (“niétal”) – Junco – nG: Cura. Restauração. Purificação. Limpeza. Harmonia. Flexibilidade. O junto é flexível e usado para tarefas domésticas e ordinárias, por isso está relacionado a limpeza e o colocar ordem sobre o caos. Indica cura e limpeza. Requer flexibilidade, foco, ir direto ao ponto, virtude, investigação. São os processos de cura, limpeza e renovação – inclusive físicos: como aventuras, férias e viagens. É a capacidade de se por ordem no caos. É a cura e a ordem, o equilíbrio entre nossos excessos e faltas. O junto é o que deve ser feito.

Straiph (“stáf”) – Espinheiro Negro – Z, St, Ts, Ss: O inevitável. Sacrifício. Luta. Negação. Morte. Destino. Mudança. Dor. Amargura. Ressentimento. Ciúmes. Ódio. Ferida que envenena a alma. O espinheiro negro é as situações que não podemos evitar e que precisam ser vividas. É o vincular-se a um projeto maior que a si mesmo e um caminho que nos controla. Indica passagem por situações desconfortáveis e incontroláveis. Requer autossacrifício e tomada de decisões. O espinheiro negro é o enfrentar das consequências.


Ruis (“rúch”) – Sabugueiro – R: Penitência. Morte. Renovação. Términos. Vergonha. Recomeço. Maturidade. Reconciliação. Aceitação. O sabugueiro é a renovação da desonra e da vergonha, é o fim e início de um ciclo, é a transformação, a punição e o aprendizado e a reintegração. Indica términos, renovação, vergonha. Requer penitência, aceitação, aprendizado e maturidade. É a reconciliação e a recuperação da honra. O sabugueiro é o acerto de contas com o passado.



Aicme Ailme (Família do Abeto / Pinheiro):
 É a velhice bem vivida, a sabedoria e o contato espiritual.

Ailm (“ahl-m”) – Abeto Prateado / Pinheiro – A: Visão. Sabedoria. Cura interior. Música. Respeito. Consciência. Euforia. Admiração. Aprisionamento. Opressão. Solidão. Medo. O pinheiro é a árvore da visão, com sua altura pode ver todo o horizonte, enxergar os problemas e tudo aquilo que chega. Indica sabedoria, vidência, contemplação do seu redor. Requer cautela e planejamento. Representa o festival de Yule. O pinheiro é a visão e a sabedoria para além das aparências.



Onn (“uhn”) – Tojo – O: Fertilidade. Paz. Sexualidade. Movimento. Eloquência (sabedoria e tolice). Recebimento. Fim da busca. Divisão do conhecimento. Talentos. Proteção. Perigo. Complicações. Embaraço. O tojo é uma árvore flexível de fácil polinização pelas abelhas. Por isso indica fertilidade e sexualidade. É o fim do caminho e a conquista dos sonhos. Requer abnegação e que se reparta aquilo que foi acumulado. Representa o festival de Ostara. O tojo é o dividir-se com o mundo e o êxito no caminho.


Úr (“oor”) – Urze – U: Cura. Amor. Conhecimento. Aceitação. União. Ilusão. Desejo. Conflito. Manipulação. A urze é a planta que nos pede para olharmos dentro de nós mesmos a fim de nos encontrarmos e nos curarmos. Seu néctar é alimento dos Deuses e ela nos fala da busca espiritual e do encontro com o amor verdadeiro. Indica cura (física e espiritual), amor, união, espiritualização. Requer dedicação, aceitação das coisas. É preciso olhar para dentro de nós mesmos a fim de nos curarmos e elevarmos. Representa o festival de Litha. A urze é a cura que vem do autoconhecimento.

Eadhadh (“eh-wah”) – Choupo / Álamo Tremedor – E: Orientação. Prevenção. Julgamento. Batalha espiritual. Proteção. Coragem. Vitória sobre os desafios. Medo. Dúvida. O choupo é uma árvore que farfalha facilmente ao vento, nos trazendo mensagens divinas e, por isso, está ligada à divinação. Seus galhos se dobram e resistem aos ventos. Indica vitória sobre os desafios, orientação e prevenção. Requer coragem, foco, fortificação. Todo desafio pode ser vencido. Representa o festival de Mabon. O choupo é a coragem para enfrentar os desafios.


Iodhadh (“ee-yoh”) – Teixo – I: Morte. Renascimento. Conhecimento ancestral. Tradição. Longevidade. Sabedoria da idade. Transição. Portal para o Outro Mundo. Dor. Estagnação. O teixo é a árvore que representa o conhecimento tradicional, ancestral e, portanto, o druidismo. É uma árvore forte e longeva cujos buracos em seus troncos velhos são considerados portais para o Outro Mundo. Indica uma transição a ser feita, a sabedoria da idade, a morte e o renascimento. Requer abnegação, mudança e aceitação. É preciso que passemos adiante o que sabemos e deixemos ir o que precisa ir. Representa o festival de Samhain. O teixo é a transição e o contato com o Outro Mundo.

Forfeda (as letras adicionais):
É o trato mágico a ser desenvolvido.

Éabhadh (“ah-vah”) – Álamo Branco – Ea: Domínio da natureza. Imersão no sagrado. Conhecimento sobre o passado, presente e futuro. Representa o festival de Imbolc. Representa Awen. O álamo branco é o domínio.



Ór (“ór”) – Evômino – Oi: Doçura, encanto, inspiração, inteligência repentina, “insght”. Sídhe (fadas) e relações com os sídhe. Representa o festival de Beltane. Representa os sídhe. O evômino é a magia das fadas.




Uillean (“ihl-lân”) – Madressilva – Ui: Um segredo escondido. Mistério. Algo a ser desvendado. Recebimento do que é devido. Representa o festival de Lughnasadh. Representa o Destino (Dán). A madressilva é aquilo que ainda não pode ser revelado.



Ifín (“ifín”) – Groselha – Io: Conhecimento antigo. Flexibilidade. Entender o passado para entender o presente e o futuro. Representa o Festim de Tara. Representa os antepassados. A groselha é o conhecimento histórico.




Eamhamcholl (“ah-vancohl”) – Hammamelis – Ae: Águas e mar. Proteção. Viagem. Purificação e limpeza espiritual. Intensificação. Renascimento. Representa o festival de Samhain. Representa os Deuses. O hammamélis são as jornadas que o mar nos permite fazer.





A Janela de Fionn:
  
A Janela de Fionn é um diagrama no qual se ver cada uma das feda do ogham organizadas em suas aicme. Recebe esse nome, provavelmente, pelo conto de Oona e o Gigante, no qual, Fionn[1], esposo de Oona, consegue ver tudo o que se passa e se precaver do que lhe espreita por sua janela em sua alta casa em uma montanha. E assim, ele e sua esposa conseguem vencer Cuchulainn. Daí a importância dela nos métodos oraculares.

Bellouesus Isarnos aponta para a Janela de Fionn como uma construção de influência pitagórica sobre os celtas, explicando toda uma matemática da sua constituição. Mas não entraremos nessa rica discussão aqui.

Uma associação mais mística vem com a conceituação trazida por João Eduardo Schleichuberti em sua palestra sobre a mística celta no VI EBDRC. É possível entendermos que os círculos demonstre conhecimentos ou regência de cada letra sobre um aspecto, indicando um caminho linear – perpassando cada fid de cada família –, ou espiralado – perpassando todas as feda de cada aspecto –, rumo a conexão sagrada, rumo ao sagrado. Desse modo, indo do círculo mais externo para o mais interno, temos a seguinte relação: o primeiro círculo representa o aspecto natural; o segundo círculo o aspecto poético; o terceiro, filosófico; o quarto, divinatório; e o quinto, druídico. Os forfeda, no entanto, deveria estar localizado no centro, representando o domínio e a soberania; mas como são letras adicionais, foram adicionados esteticamente no segundo círculo.

Além disso, a disposição das famílias representam também as quatro províncias irlandesas e assim, quatro (cinco com o centro) quadrantes.

A Aicme Beithe (Família da Bétula) representa o primeiro quadrante, o Norte, e por isso a província de Ulster, que representa a Batalha, ou seja, os aspectos negativos que podem nos gerar dificuldades.

A Aicme hÚatha (Família do Espinheiro Branco) representa o segundo quadrante, o Leste, e assim a província de Leinster, que representa a Prosperidade, ou seja, as riquezas materiais, os aspectos profissionais e práticos.

A Aicme Muine (Família da Vinha) representa o terceiro quadrante, o Sul, e por consequência, a província de Munster, que representa a Música / Arte, os dons, as habilidades, os prazeres e as emoções e sentimentos.

A Aicme Ailme (Família do Pinheiro) representa o quarto quadrante, o Oeste, a província de Connacht, que representa a Sabedoria e o Conhecimento, os aprendizados, os estudos e as lições.

Por fim, os Forfeda – como já dito – foram colocados a posteriori na Janela de Fionn e, possivelmente por uma questão estética, ocupam o segundo círculo, entre os quadrantes. Contudo, Marcela Badolatto também salienta que seu local mais indicado, provavelmente, é o centro (Mide), simbolizando a Soberania e o Domínio, simbolizando nosso ego, dignidade e percepção pessoal.
            
Desse modo, a Janela de Fionn ultrapassa um tabuleiro de jogos, e uma cartilha alfabética. Ela indica um caminho a ser traçado rumo a nossa evolução terrena e espiritual. Você deve trilhar e evoluir espiritualmente em cada família, primeiro superando os obstáculos (as batalhas) dos campos naturais, poéticos, filosóficos, divinatórios e druídicos. Fazendo o mesmo com a prosperidade que você conquista. Depois o mesmo com seus talentos e emoções. E por fim, angariando conhecimento sobre cada um desses aspectos. Em sequência a essa evolução linear. O caminho a ser atingido é o espiral quando você se foca no aspecto e perpassa pelos quadrantes: as batalhas naturais, a prosperidade natural / física, os talentos naturais, o conhecimento natural. Iniciando a dificuldade poética, a conquista poética, a vivência poética e a compreensão poética. Indo para a complexidade filosófica, descobrindo as possibilidades filosóficas, vivenciando a filosofia e compreendendo a filosofia. Começando com as dificuldades divinatórias, descobrindo seus métodos e utilidades, vivenciando sua prática e o contato com os Deuses, compreendendo sua profundidade. E por fim, lidando com as batalhas druídicas, com a prosperidade druídica, alcançando a conexão e a compreensão do mundo. O que levaria a alcançar então a soberania e o domínio.
            
Na primeira vivência, linear, você alcança o domínio sobre si mesmo e se torna apto a ajudar os demais. Na segunda vivência, espiralada, você alcança o domínio sobre o mundo, e torna-se apto a espiralar para fora, levando sua conquista aos outros ramos e aspectos do mundo. Cabe ressaltar que só é possível fazer esse caminho dessa forma, primeiro linear, depois espiralado. E que deve-se atentar às peculiaridades de cada fid, sua sequência e seu desenvolvimento é fundamental para o êxito.
            
Esse não é um caminho fácil, muito menos rápido. É um caminho de vida. Que nos permite pensar na Janela de Fionn como uma janela para nós mesmos, uma janela para alma, e uma janela para a compreensão profunda e a sabedoria.



Sugestões de Leitura:

ISARNOS, Bellouesus & SENEWEEN, Rowena A.. Ogham [20 artigos sobre as 20 fedha] IN Templo de Avalon. Publicados entre 22/10/2012 e 13/08/2013, disponíveis em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/category.php?categoryid=24>.

YBYRAPYTÃ, Ëldrich Hazel. Ogham e o Símbolo das Fedha In Templo de Avalon. Publicado em 13/12/2009, disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/articles/article.php?id=55>.


Referências:

BADOLATTO, Marcela. Ogham com método divinatório [palestra] In VI EBDRC. Circulação interna, Curitiba: 2015.

CIEJD. Oona e o Gigante – um conto irlandês In eurocid. Disponível em: <http://www.eurocid.pt/pls/wsd/wsdwcot0.preview?p_sub=55&p_cot_id=6142&p_est_id=12820>.

ISARNOS, Bellouesus & SENEWEEN, Rowena A.. Ogham [20 artigos sobre as 20 fedha] IN Templo de Avalon. Publicados entre 22/10/2012 e 13/08/2013, disponíveis em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/category.php?categoryid=24>.

ISARNOS, Bellouesus. Sobre o Renascimento 1 In Bellodunon [blog]. Publicado em: 10/01/2013, disponível em: <http://bellodunon.com/2013/01/10/sobre-o-renascimento-1/>.

________________________. Ogham I – Introdução. 3º EcD/RS, circulação interna: 2015.

Schleichuberti, João Eduardo. Elementos Místicos do Druidismo e sua interconexão e uso prático [palestra] In VI EBDRC. Circulação interna. Curitiba, 2015.

SENEWEEN, Rowena A.. Estudos do Ogham – Introdução In Templo de Avalon. Publicado em 23/10/2012, disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=97>.
  
YBYRAPYTÃ, Ëldrich Hazel. Ogham e o Símbolo das Fedha In Templo de Avalon. Publicado em 13/12/2009, disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/articles/article.php?id=55>.




[1] Fionn é um dos clássicos heróis celtas cujas lendas dão origens e fins variados a sua personalidade. Em todas ele se mostra um brilhante líder, hora humano, hora uma fada.

As Quatro Jóias dos Tuatha dé Danann

Link
As Quatro Joias dos Tuatha dé Danann: Lança de Lugh, Pedra de Fal, Espada de Nuada e Caldeirão de Dagda.

Por Ávillys d’Avalon.

Também chamadas de “Os Quatro Dons dos Tuatha dé Danann” e “As Quatro Armas dos Tuatha dé Danann”.
           
“As Tuatha Dé Danann das joias preciosas,
Onde encontraram elas a ciência?
Chegaram na perfeita sabedoria
Em druidismo, artes malignas.

Brilhante Iardanel, um profeta de excelência,
De Nemed filho, filho de Agnoman,
Teve como tolo descendente o ativo Beothach,
Que um herói foi na destruição, pleno de maravilhas.

Os filhos de Beothach – longa a vida de sua fama -,
A multidão chegou dos valentes guerreiros
Depois do pesar e após grande tristeza
A Lochlann com seus rebentos todos.

Quatro cidades – justo seu renome –
Em agitação contemplaram com grande força.
Por esse motivo apaixonadamente competiram
Para aprender sua genuína sabedoria.

Failias e Gorias brilhante
Findias, Muirias de grande bravura,
Fora da qual batalhas foram vencidas,
Das principais cidades os nomes.

Morfis e o nobre Erus,
Uscias e Semiath, sempre aterrador,
Nomeá-los – um discurso necessário –
Os nomes dos sábios de nobre sabedoria.

Morfis, o poeta da própria Failias,
Em Gorias Esrus dos desejos intensos,
Semiath em Murias, dos pináculos a fortaleza,
Uscias, o justo vidente de Findias.

Quatro presentes de lá com eles
Pelos nobres das Tuatha dé Danann:
Uma espada, uma pedra, um caldeirão de qualidade,
Uma lança para a morte dos grandes campeões.

De Failias para cá a Lia Fail
Que gritava sob os reis da Irlanda.
A espada na mão do ágil Lug
De Gorias – uma escolha de riquezas vastas.

De Findias distante sobre o mar
Trazida foi a lança mortal de Nuada.
Um grande e poderoso tesouro de Murias,
O caldeirão do Dagda de feitos elevados.

O Rei do Céu, o Rei dos frágeis homens,
Que ele me proteja, o Rei das regiões reais,
O Ser em quem está a permanência dos espectros
E da raça gentil a força.”

Tuatha Dé Danann.

O Fim.
(poema traduzido do Leabhar Buidhe Lecain apud Bellouesus Isarnos)[1]

Esse poema está registrado no Leabhar Buidhe Lecain (Livro Amarelo de Lecan), um dos livros mitológicos medievais a respeito da Irlanda e dos celtas irlandeses. Com a maioria dos livros desse período, esse livro foi escrito por monges copistas e provavelmente contém itens e coisas já alterados em relação aos mitos e lendas pré-cristãs. Contudo é uma das poucas fontes escritas que temos de mitologia celta, datada da Idade Média. O que nos interessa no entanto, é que há um possível erro no poema (inclusive em sua versão original em irlandês), no qual atribui a Espada a Lugh e a Lança a Nuada. Outras lendas além do uso clássico e popular atribuem o oposto: a Lança a Lugh e a Espada a Nuada. Nesse sentido, eu adotarei o uso popular.
            
O que nos interessa, então, é a história (mítica, porém sacra) da conquista da Irlanda pelos Tuatha dé Danann...

Antes de desembarcarem e dominarem Ériu (Irlanda), os Tuatha dé Danann habitavam e peregrinavam por quatro cidades míticas ao norte do mundo, onde aprenderam as artes místicas, ou as artes druídicas (druidecht): conhecimento (fis), profecia (fáistine) e habilidades mágicas (amainsecht); sob a tutela dos quatro magos: Semias de Murias, Mofessa de Falias, Uiscias de Findias e Esras de Gorias.
            
Enquanto viviam sob a hospitalidade das cidades, os Tuatha sonhavam com uma terra que fosse sua, onde poderiam ser soberanos. Os sonhos de soberania recaíram sob a Ilha Esmeralda, cobiçada por suas verde aparência e por sua localização mais ao sul das cidades onde os Tuatha habitavam.
            
Antes de partirem à conquista de Ériu sob o comando do Rei Nuada, os quatro magos deram, cada um, um presente aos Tuatha, um talismã:

Morfessa de Falias deu a Lia Fail, ou seja, a Pedra de Fal, que gritaria ao ser pisada pelo rei que legitimamente tomasse a soberania de Ériu (fláith Érenn). Esras de Gorias deu a Sleg Loga, ou seja, a Lança de Lugh, capaz de assegurar a vitória daquele que a empunhasse. Uiscias de Findias deu a Claideb Nuadat, ou seja, a Espada de Nuada, que, uma vez desembainhada, jamais deixaria de atingir o oponente. Semias de Muirias deu o Coiri in Dagda, ou seja, o Caldeirão de Dagda, do qual nenhum bando de guerreiros valentes afastar-se-ia sem ter encontrado todo o alimento que desejasse.[2]

Com essas joias, os Tuatha conseguiram assegurar a conquista, o domínio e a soberania sobre Ériu.
            
Atualmente, é comum que druidistas atribuam as Joias às quatro direções cardinais, usando-as em suas práticas ritualísticas e também associadas ao jogo oracular do Ogham e a Janela de Fionn. Uma das correlações possíveis e comumente utilizada é a correlação com as quatro regiões irlandesas: Leinster, Munster, Connacht e Ulster, que respectivamente preenchem os pontos cardinais da Irlanda: Leste (Leinster), Sul (Munster), Oeste (Connacht) e Norte (Ulster). Essas posições também recebem atributos: Prosperidade (Leste – Leinster), Música (Sul – Munster), Conhecimento (Oeste – Connacht) e Batalha (Norte – Ulster).
            
Quanto ao posicionamento das joias nas direções cardinais, não existe nenhum registro histórico que de fato delegue as joias à qualquer posição, o que nos leva a crer que essa prática seja referente ao druidismo moderno. Desse modo, não há um posicionamento mais certo que o outro, mas posicionamentos que estudos específicos levam a constatar com verdadeiros cujas finalidades são atendidas, tornando todos igualmente verdadeiros e plausíveis.
            
Dentro de meus estudos, tendo a fazer o seguinte posicionamento:

Joia
Mago
Cidade
Direção
Atributo
Região
Caldeirão de Dagda
Semias
Murias
Leste
Prosperidade
Leinster
Pedra de Fal
Morfessa
Falias
Sul
Música
Munster
Espada de Nuada
Uiscias
Findias
Oeste
Conhecimento
Connacht
Lança de Lugh
Esras
Gorias
Norte
Batalha
Ulster


Minhas razões para essa atribuição são simples: o Caldeirão de Dagda é aquele que jamais deixará um nobre guerreiro passar fome, portanto está relacionado a Prosperidade física e terrena. Concomitante, a bandeira de Leinster possui uma harpa, outro objeto atribuído ao Deus Dagda. A Pedra de Fal é aquela que grita quando um legítimo rei pisar sobre ela, dando-lhe o direito de reclamar a soberania de Ériu, ou seja, está relacionada ao destino e a nobreza, o que nos faz clara menção à Oran Mor (a Grande Canção), a música celestial que é tudo e conduz tudo. A bandeira de Munster possui três coroas, o que faz clara referência à soberania dada pela Pedra. A Espada de Nuada é aquela que jamais deixa de atingir um oponente e por isso requer conhecimento para que seja usada com sabedoria. Também a bandeira de Connacht possui uma ave negra e um braço de guerreiro vestindo uma armadura prateada e empunhando uma espada, o que pode ser uma referência à condução de Morrigan a Nuada na vitória da primeira batalha de Mag Tured. Por fim, a Lança de Lugh é aquela que assegura a vitória a quem a empunha, sugerindo a vitória nas batalhas. E a bandeira de Ulster tem uma mão com os dedos para cima, simulando (talvez) o desenho de uma lança.

                        
E assim, ao compor meu espaço sagrado (onde quer que ele se localize) busco evocar o poder das Quatro Joias seguindo esses pontos cardinais, recriando a soberania dos Tuatha dé Danann sobre a Ilha Esmeralda, e fazendo do centro do meu espaço sagrado um local pleno de assegurada Soberania.










Sugestões de leituras:

Seneween, Rowena A. O que são os 30 dias druídicos In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=51>.


Referências:

Black, Lady Mirian. Os quatro tesouros na magia celta [Capítulo 43] In Bruxas. São Paulo: Ícone Editora, 2012, pp.225-242.

CELT. The Four Jewels of the Tuatha dé Danann In CELT: The Corpus of Eletronic Texts [S. I.]. Disponível em: <http://www.ucc.ie/celt/published/G300008/>.

Isarnos, Bellouesus. As Quatro Joias das Tuatha dé Danann I In Bellodunon [S. I.]. Disponível em: <http://bellodunon.com/2013/01/15/as-quatro-joias-das-tuatha-de-danann/>.

_____________________. As Quatro Joias das Tuatha dé Danann II In Bellodunon [S. I.]. Disponível em: <http://bellodunon.com/2015/08/12/as-quatro-joias-das-tuatha-de-danann-2/>.

Léourier, Christian. Contos e Lendas da Mitologia Celta. São Paulo: wmf Martins Fontes, 2008.

Schleichuberti, João Eduardo. Elementos Místicos do Druidismo e sua interconexão e uso prático [palestra] In VI EBDRC. Circulação interna. Curitiba, 2015.


[1] Retirado de Isarnos, Bellouesus. As Quatro Joias das Tuatha dé Danann I In Bellodunon [S. I.]. Disponível em: <http://bellodunon.com/2013/01/15/as-quatro-joias-das-tuatha-de-danann/>, acessado em 30 de março de 2016. Versão original em irlandês disponível em: <http://www.ucc.ie/celt/published/G300008/>.
[2] Isarnos, Bellouesus. As Quatro Joias do Tuatha dé Danann II In Bellodunon [S. I.]. Disponível em: <http://bellodunon.com/2015/08/12/as-quatro-joias-das-tuatha-de-danann-2/>, acessado em 30 de março de 2016.